quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

2011: e agora?

Ano novo, vida nova? Muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender? Well, Drummond:


Cortar o tempo

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

Passagem do ano
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais uma ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso de dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge o amanhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

De carona em Take the A train de Duke Ellington, desejo a todos um feliz 2011.

Leo.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal: reflexões.

Hoje, véspera de Natal, estive pensando no significado dessa data. Quando era criança por essas horas, estava na angústia da chegada do papai noel, banho tomado, expectativa dos presentes. Atualmente, adulto, corremos atrás para comprar para piazada, os papéis se inverteram. Mas, sinceramente, quando vejo as crianças de hoje em relação a essa expectativa, elas não me parecem tão ansiosas. Com o mundo voltado praticamente a máquina do consumo, o ganhar presente no Natal se tornou somente mais uma data qualquer para ganhar, como, por exemplo o dia das crianças. Os papais Noel tornaram-se presentes demais antes da comemoração, todos os shoppings tem um praticamente. Antes, nossa, tinha que ir no beira-rio ver a chegada do papai noel. Talvez essa onipresença de papais noel tenha frustrado um pouco a criançada.

O que eu queria falar mesmo, depois dessa nostalgia toda, é em relação ao significado dessa data. Nos países como o Brasil, onde sua maioria é católica, em tese, comemoramos o nascimento do menino Jesus. Todavia, na atual loucura da população em comprar e comprar, isso passa totalmente despercebido. A própria imprensa quase não fala nada. Só fala em vendas, vendas. Não sou católico, mas utilizo a data para refletir um pouco sobre as mazelas do mundo, valorizar a família, lembrar os antepassados, enfim, pensar.

Desejo um feliz Natal a todos, principalmente às crianças do mundo, aquelas que não tem um lar, uma família,  alguém para estender a mão. Pensamos no que podemos fazer para mudar isso.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Porque leveza do ser.

Escrever em um blog, para eu que estou começando hoje, parece algo um pouco estranho. A possibilidade de milhares de desconhecidos estarem lendo as palavras desferidas pelo autor no blog sem que se saiba nada sobre o referido leitor gera uma sensação de potencialidade minorada. Bom, enfim, vários já chegaram essa conclusão, porém porque a leveza do ser? Apesar da proximidade do nome com o livro do Milan Kundera, quero utilizar o espaço para escrever sobre pensamentos, críticas, ideias, curiosidades, viagens e observações cotidianas. Se alguém um dia possa ler essas palavras, não sei, porém o compartilhamento delas com o mundo, produz a sensação de leveza do ser.